domingo, 4 de novembro de 2012

pasteur sentimental

sedimentos de saudade corroem-me as veias
e por rubro insano rio remo delírios
e nele afogo calamitosas colcheias
e semínimas em dó por sol em martírio

às margens azaléias e rosas e lírios
dobram-se ao vento e amor lhe confidenciam
mas outros gritos soltos em pragas e cios
apossam-se da terra e a colheita adiam

o sol bate mais forte e com arrepios
toda sorte d'águas de mares e de rios
levantam-se vaporosas e retumbantes

e dos ares brota música, em colcheias
e semínimas, volta alada que incendeia
os campos e gorjeia cores no semblante

do despertar

um qualquer macaco
deu-me uma banana
e naquele ato
passou uma semana
quando dei por mim
estava pelado
em meio a um jardim
sem muros ou lados
à beira dum lago
do sol quis a chama
e o mesmo macaco
deu-me outra banana
de dentro do lago

sábado, 3 de novembro de 2012

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

infindo

lançam-me à cova dez mil braços em tumulto
repartindo entre si tesouros duma vida
achada em calhamaços e folhas partidas
donde se encontra pouco mais que mero vulto

tampam-me o caixão e não ouço mais insultos
solene adentro a escuridão oferecida
em total solidão a não ser parasitas
a roer-me a capa e alguns papéis avulsos

mas algo à deriva de mim cá permanece
ao longo de vidas que florescem e falecem

cultivada pelo espanto de novas vozes

do canto onde repouso ouço-lhes o canto
e sempre que posso ao seu clamor me levanto
e o mundo inundo de leitos, rios e fozes

diálogos penianos (alguns diálogos brochantes)

dialogados em
http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=234502
http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=234288



aprenda a usar mais a cabeça de cima e pare de ejacular teu pólen em flores alheias




pequena estrelinha
baniu-me do céu
e só de birrinha
fiz-lhe um fogaréu




podes queimar vírgulas e vogais
no afã de tuas fogueiras vãs
e aproveita o calor dos carnavais
e queima a língua em frases pagãs





que a pessoa seja pequena e tacanha ainda vá
mas que não saiba rimar senão ar com mar
ou amor com dor de estrelinha bonitinha
já é demais ofensa tamanha ao meu indagar




cara, essa foi profunda
será que enfim do teu cérebro
saiu algo que não grelo?
ou talvez saiu da bunda?




ninguém me escuta
me faço cego
e astuto nego
da verve a culpa




duas sombras me seguem
a do sol e a da lua
não importa que neguem
minha face obscura



quinta-feira, 1 de novembro de 2012

falso profeta

sou um falso profeta
dos amores e salmos
e perdões em oferta
com que todos são salvos

sou um falso profeta
deixo claro em meus versos
que a dor no peito aperta
quem a mim é averso

sou um falso profeta
que por incertas linhas
teço a trama que afeta
tua vida e definha

sou um falso profeta
com promessas d'amor
nas provações abertas
por meus versos de dor

reflexão

essa finitude em meio ao infinito
esse despropósito em frente ao espelho
essa busca incessante por sair da sombra
isso tudo move e comove e ainda faltam palavras
devemos inventá-las para dialogar com o indizível

será que você me lê?
será minha pena teu instrumento?
o que quer de mim?
serás tão solitário quanto nós?

é como ler uma obra póstuma e ouvir o autor
mas não poder questionar ou mesmo aplaudir

quis me mostrar algo e te dei as costas
talvez, talvez um dia