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quinta-feira, 25 de maio de 2017


como é sensível nossa insensa tez
ao menor toque, mesmo que não frio
dobra-se, encolhe e nu, ora arrepio
ora envergonho orar mais desta vez

nenhuma crença mais intensa fez
duma criança, jarro ora vazio
num vasto lago onde jorra um rio
sua vazão, corrindo densas leis

lago cresce e transborda, ora à porta
ora à janela, toda sua revolta
por preso estar à forma que o comporta

quando se fecham, tanto mais se volta
contra quem há desfeito de suas bordas:
chove que a todos cobre a insensa tez

terça-feira, 23 de maio de 2017


desaba sobre mim a escuridão
e a noite como foice me degola
cadáver sem uma boca, logo agora
que berro, sem demora, morre então

os ecos em meu peito ao infinito
borbulham sufocados, tudo em vão
as sombras que sufocam quando grito
são surdas como as portas, que aflição!

silêncio tão completo me recobre
conforto não encontro nesse leito
foi feito de dejetos pouco nobres

um túmulo onde jaz a mim afeito
meu sonho, que de dia, se descobre
murmura mesmos ecos com efeito

segunda-feira, 15 de maio de 2017


nunca encontro palavras de conforto
quando cobra-me o mundo sua miséria
dou-lhe meio centavo em desacordo
oferece-me a face das mais sérias

a pujança que lhe devo tanto fere-a
que se deita e seu corpo, como morto
é enterrado - mas pulsa, pulsa artéria
e a meu corpo ora clama ser seu porto

dividido entre mim e todo o mundo
abarcando do céu ao horizonte
cumpro pena prescrita a quem mudo

um proscrito ao luar sorvendo aos montes
do silêncio do mar trago bem fundo
pago a dívida ao ouvir-lhe o que hoje conte

quarta-feira, 10 de maio de 2017


rude carranca, o tempo, ele mascara
linhas cruéis com dentes escrevera
na fina tez, pra muitos, a mais cara
da fome eterna exposta na caveira

triste essa história, embora verdadeira a
face de tudo um dia ele massacra
nada sacia o tempo e se atrevera a
todas mascar, profana seja ou sacra

máscaras de papel, cetim ou ferro
pouco protegem - rosto segue enfermo
rugas que expressam fim de obra mais rara

obra sem fim de autor não consagrado
ninguém o lê, eterno desagrado
rude carranca, o tempo, ele mascara

domingo, 25 de setembro de 2016

.



encarcerados, multicelulares
seres humanos pendem, cabisbaixos
por fio tenso: o abismo lá debaixo
não causa espanto ou trocas oculares

na pequenez da cela, tão distantes
pelas janelas, longe de seus lares
escutam ao mundo, mudos, singulares
a lhes chamar plurais, mas como dantes

fazem-se surdos. cegos, ignorantes
crendo-se reis, prostrados. por pesares?
não, pelo próprio umbigo, indigesto

no microscópio, seres celulares 
levam no elevador. cabeça abaixo
num cumprimento: somos nossos gestos



.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

dormem todos e sonham-se despertos
toda luta e rotina, passatempos
vaga mente entre água, fogo e vento
acredita dos sonhos estar perto

quanto mais se aproxima, tão mais certo
tudo mude, ruindo entre lamentos
na memória sepulta a exemplo
do que não se fazer para dar certo

recomeços sem fim na noite eterna
seja rei ou escravo, a mente hiberna
procurando por algo onde não há

há papéis que se dão uns para os outros
seja rei ou escravo, nenhum solto
pesadelo sonhando até acordar

terça-feira, 29 de julho de 2014

nossa morta acende

aqui nos reunimos, lenço à mão
com vozes embargadas, feições duras
na chuva que acompanha as sepulturas
de toda relação, quer viva ou não

de nossa, que dizer? foi nosso chão
polido com suor, onde perdura
apesar de nosso esforço, mancha escura
raiz de nossos males desde então

andava muito pálida e soturna
no céu, o lago azul já não lhe prende:
voando qual barquinho, as nuvens fura

pois sempre o horizonte está à frente
e assim também a vida continua.
num barco à vela, nossa morta ascende



* o título e mote do soneto foi inspirado num título de um poeteiro de meia tigela de amor: "Nosso Amor Transcende"

domingo, 27 de julho de 2014

aquarela


busco aquela qualidade indefinida
que se encontra nas melhores aquarelas
onde arde a luz solar e te convidas
a viagem matinal por barco a vela

e transporta além do espaço onde se abriga
solo fértil para manchas e procelas
em torrentes derramando-se aguerridas
à mão firme que pincela sobre a tela

não está no enquadramento ou nas cores
nem tampouco em seu traçado ou naquela
paisagem sempre em mente aonde fores

é a cria dos teus óleos em m'ia pena
a tornar uma moldura uma janela
onde enfim tu me encontras e me acenas

quarta-feira, 23 de julho de 2014

.

os dias da velhice são infinitos
são sempre a mesma coisa indefinida
retalhos de memórias d'outra vida
bailando em frente a olhos que não fito

adia toda espera, todo grito
conforta toda dor imerecida
saber que tudo passa, na saída
por ponto em horizonte tão bonito

o mundo gira, gira e continua
pessoas vão e vêm e vivem vãs
bebês têm mesmo céu que suas mães

qual céu, que, indistinto e todo azul
a vista toda abarca, norte a sul
o velho, qual bebê, vê a vida nua

.

domingo, 26 de maio de 2013

da cegueira

alguns se contentam em apenas ser gado
e cegos seguirem um pastor pelos prados
que afasta os perigos e lhes cuida o couro
para ter bom lucro lá no abatedouro

a outros basta voar livre pelos ares
e não ser abater se não encontrar seus pares
pois abatido já será pelo dia
ou na cegueira noturna e luzidia

pois quando na escuridão, queremos luz
e qualquer penumbra à sombras seduz
que nos contentamos com jogos de sombras
e a verdadeira luz nos cega e assombra

enxergamos apenas o que queremos
não cremos no corpo cremado que vemos

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

ao poeta chorumelas



tu, que derretendo-te todo em lágrimas
fazes de senhoras tuas companheiras
a soluçar junto de ti tão cheias
d'esperança pela seguinte página

tu, que não largas dessa pena fálica
e com ela açoitas e as incendeias
como voraz o fogo na madeira
até somente serem cinzas pálidas

tu, que a fumá-las uma após a outra
não sentes remorso, não sentes nada
apenas inspiras a fumaça solta

tu sabes bem o que te espera ao fim
quando teu peito arfar qual dor d'amada
virei cobrar-te o pó que fizeste a mim


domingo, 20 de janeiro de 2013

o cotidiano segue amargo


o cotidiano segue amargo
todos empenhados em suas tarefas
por vezes deixo de lado meu fardo
e contemplo o que o labor acarreta

mas triste vejo que a água no barco
sendo a mesma que nos pôs em alerta
não deixa que o medo passe ao largo
ninguém comenta do que nos afeta

falamos de direções e do tempo
cantamos e bebemos desatentos
ocupações de mentes condenadas

pois não sabemos para onde vamos
e a retirar água nos condenamos
aqui nessa prisão em meio ao nada

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

sombra


de dia, encolhida aos meus pés, minha sombra
me acompanha calada, aonde quer que eu vá
não importa a dureza da trilha de lá
cá está ela, a quais aventuras sejam, pronta

e se reclamo que sua mudez me afronta
e da irritação que sua imitação me dá
sua face muda volta e me oferece já
da mesma irritação com que de mim zomba

por fim, o entardecer chega e aos prantos tomba
e vendo-me livre de sua presença
ponho-me a pensar sobre os fatos do dia

e sem a luz do sol são pura agonia
a aspereza das pedras a mente esquenta
e o que está por baixo ganha vida e assombra

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

os sonhos dos outros


meus sonhos, a mim tão caros e pequeninos
pela maré cobertos de espuma, em areias
no abismo dormindo, encantados por sereias
sonham-se moradas de cavalos-marinhos

agora que se foram, a vida me ensina
navegar é preciso e em volta e meia
ao mar me dirijo, revolto, e pranteia
à dureza em minha voz, e à triste sina

tremo ante sua imensidão e numa fagulha
o sol a esperança reviva em minha vista
e sob os escombros dos sonhos, uma agulha

mera velha garrafa onde jaz uma carta
e ao lê-la sei-me tão pequeno que, otimista
com mais fé singro os mares em dobrada barca



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

a vida num sonho


coube a mim dar a vida por encerrada
tanto mais cruel pelo tanto de lutas
por glórias aqui se lhe negando injustas
em tramas pelo estreito palco encenadas

fecham-se as cortinas, vai encarcerada
autora de finas rotinas, da arguta
compreensão da humanidade, e escuta
a indiferença da platéia ingrata

vai em silêncio mas nunca forçada
prenhe de idéias, voz amordaçada
ser canonizada por autoridades

e coube a mim este papel perverso
onde carrasco a eternizo em versos
a vida num sonho de posteridade

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

odisséia


confabulo à soleira da porta fechada
qual caminho a seguir dentre os tantos abertos
parecendo correto assumir o mais reto
ser melhor do que um torto, me lanço à estrada

caminhando entre matas e feras macabras
dou-me então por vencido e olhando mais perto
pela ausência de traço ou razão que venero
abandono essa reta que finda em nada

à saída da escura floresta, um rio
estampado com brilho solar me convida
e recusa não sendo possível, mergulho

não importa de qual forma nade, marulhos
me carregam por curvas por toda a vida
mas ao fim, desaguando em cidade me rio



sábado, 10 de novembro de 2012

canção de baco


quando baco tem minha atenção
livra-me das musas o suplício
com olhar turvo vejo a mansão
de plutão pelos campos elísios

no subsolo da depressão
da terra oculta gemem em martírio
almas mil que justiça e razão
dos 3 reis livra ou condena o vício

verei essa terra quando sóbrio?
quando desperto do véu da carne
verei sentido com outros olhos?

não importa, a canção de baco
acalentando a alma que arde
esfria medos, torna-os fracos

domingo, 4 de novembro de 2012

pasteur sentimental

sedimentos de saudade corroem-me as veias
e por rubro insano rio remo delírios
e nele afogo calamitosas colcheias
e semínimas em dó por sol em martírio

às margens azaléias e rosas e lírios
dobram-se ao vento e amor lhe confidenciam
mas outros gritos soltos em pragas e cios
apossam-se da terra e a colheita adiam

o sol bate mais forte e com arrepios
toda sorte d'águas de mares e de rios
levantam-se vaporosas e retumbantes

e dos ares brota música, em colcheias
e semínimas, volta alada que incendeia
os campos e gorjeia cores no semblante

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

infindo

lançam-me à cova dez mil braços em tumulto
repartindo entre si tesouros duma vida
achada em calhamaços e folhas partidas
donde se encontra pouco mais que mero vulto

tampam-me o caixão e não ouço mais insultos
solene adentro a escuridão oferecida
em total solidão a não ser parasitas
a roer-me a capa e alguns papéis avulsos

mas algo à deriva de mim cá permanece
ao longo de vidas que florescem e falecem

cultivada pelo espanto de novas vozes

do canto onde repouso ouço-lhes o canto
e sempre que posso ao seu clamor me levanto
e o mundo inundo de leitos, rios e fozes

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

celeste

incomoda-me o plano azul do céu
sem pássaros n'afoita revoada
ou nuvens cobertas a sol e mel
lembra-me página em branco, um nada

que ao menos da linha do carretel
pipas piquem-lhe as veias e trovoadas
d'antigas cantigas rasguem-lhe o véu
dessa serena viuvez desbotada

quem sabe assim não lhe eclode alegria
no prazer em raiar um novo dia
despertada com orvalhada tez

antes toda a paixão das intempéries
que a quem vivo queima, arde e fere
que à sombra sucumbir em placidez