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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

ciclo econômico

.

moeda
no chão
achada
é sorriso
em boca sem siso
desdentada
cheia de pão

inflação
desmesurada
despudorada
após agachada
cobre onde piso
pela calçada
da menos nobre
cor de cobre
merda


.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015




deste um sentido à vida
e o sentido era leste:
leste, leste toda vida
mas nada leste que preste





segunda-feira, 3 de novembro de 2014

precavida

quem aqui chega
embrulhado em placenta
ungido por lágrimas
não se apercebe de imediato
da aspereza do mundo

mil cicatrizes depois
já seco e erodido
finca com firmeza
a sola do pé no solo
pois teme partir

e fincando se parte
e parte comigo fica

quarta-feira, 13 de agosto de 2014





eis o sentido da vida:
sempre pra frente, cabeça
erguida, caminhe à beça
sempre buscando a saída




quarta-feira, 23 de julho de 2014

.

os dias da velhice são infinitos
são sempre a mesma coisa indefinida
retalhos de memórias d'outra vida
bailando em frente a olhos que não fito

adia toda espera, todo grito
conforta toda dor imerecida
saber que tudo passa, na saída
por ponto em horizonte tão bonito

o mundo gira, gira e continua
pessoas vão e vêm e vivem vãs
bebês têm mesmo céu que suas mães

qual céu, que, indistinto e todo azul
a vista toda abarca, norte a sul
o velho, qual bebê, vê a vida nua

.

sábado, 17 de agosto de 2013

the living dead

a poem is like a virus
neither living nor dead
it doesn't move
it doesn't breath
under heaps and heaps
of earthen material
under tons of rotten dust
all wrapped up
in crumbling yellow pages
it awaits

it then spreads
as soon as you touch it
it still doesn't breath at all
but it inspires you
and then disseminates

. . .

a poet is like a zombie
neither living nor dead
it moves but goes nowhere
its breath, long taken away
under heaps and heaps
of dead poet corpses
under tons of rotten dust
all wrapped up
in ragged yellow pages
babbling and gushing non-sense
it awaits

it then awakes
as soon as it smells
your fresh brain
it's inspired by your fear
but one bite suffices
and it disseminates
then all the babbling and gushing
starts to make sense

quinta-feira, 18 de abril de 2013

platéia




vida, lúdica vida
ora teatro, ora um jogo
onde tudo vale, tudo é engodo
importa vencer e domar a platéia
ganhar aplausos e marcar ponto
ninguém pergunta o porquê
para quê tanto drama e disputa
para agradar alguém que não se vê



domingo, 20 de janeiro de 2013

o cotidiano segue amargo


o cotidiano segue amargo
todos empenhados em suas tarefas
por vezes deixo de lado meu fardo
e contemplo o que o labor acarreta

mas triste vejo que a água no barco
sendo a mesma que nos pôs em alerta
não deixa que o medo passe ao largo
ninguém comenta do que nos afeta

falamos de direções e do tempo
cantamos e bebemos desatentos
ocupações de mentes condenadas

pois não sabemos para onde vamos
e a retirar água nos condenamos
aqui nessa prisão em meio ao nada

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

a vida num sonho


coube a mim dar a vida por encerrada
tanto mais cruel pelo tanto de lutas
por glórias aqui se lhe negando injustas
em tramas pelo estreito palco encenadas

fecham-se as cortinas, vai encarcerada
autora de finas rotinas, da arguta
compreensão da humanidade, e escuta
a indiferença da platéia ingrata

vai em silêncio mas nunca forçada
prenhe de idéias, voz amordaçada
ser canonizada por autoridades

e coube a mim este papel perverso
onde carrasco a eternizo em versos
a vida num sonho de posteridade

domingo, 11 de novembro de 2012

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

solitude


jogava a vida pelo ralo
como cruel deus d'amor próprio
que se cala enquanto falo
enrijecido em solilóquio



domingo, 28 de outubro de 2012

sirigaitas descalças




afago o cão
e se paro
ladra, pede mais e mais
do fundo do coração
com ganidos
bestiais




de todos os lenços molhados
que enfeitam meu cesto de lixo
sempre que pernas partem de lado
e vozes por capricho gemem

satisfizeram-me tão somente
aqueles que levam meu sêmen




sirigaita descalça
aos meus ouvidos versos
sopra, cansa e perverso
mais a TV a exalta




a sílfide de prata
de ouro e jóias adornada
jazia no escuro nua
fria e dura

a lápide era de pedra
lascada e banhada
asceta que era
de lua pura

fez-se mito ainda na mocidade
despedindo-se na vã idade
da vida vaidética
sem uma cura




atrofiado instrumento da voz
desafinava a tudo e a todos
vivia sem paz em meio a tolos
desde que da vida ouviu-lhe a canção
perfurando-lhe atroz o coração